Karma aplicado a blogs: os artigos que você escreve são flechas

Os artigos que você escreve são flechas.

Mas antes de entender essa afirmação talvez você devesse ler o artigo em que explico como pretendo aplicar o conceito de karma a blogs.

Karma nada tem de místico. É apenas uma lei de causa e efeito. Praticamente uma lei física.

Citando o livro Tratado de Yôga, de DeRose:

O karma se divide em três tipos: passivo, potencial e manifestado. Temos absoluto domínio sobre os dois primeiros. (…) Existe uma parábola que ilustra isso muito bem. O ser humano e o seu karma são como o arqueiro com suas flechas. Na primeira etapa, as flechas estão pousadas passivamente na aljava. Esse momento representa o karma passivo, com o qual você pode fazer o que bem entender. Na segunda etapa, o arqueiro saca uma das flechas, coloca-a no arco e tensiona-o. Ele pôs em estado de alerta uma energia potencial, mas ainda tem completo domínio, pois poderá atirar nesta ou naquela direção e, ainda, poderá desistir de lançar a flecha e guardá-la novamento no coldre. A terceira etapa é quando o arqueiro solta a flecha. A partir daí não dá para voltar atrás, não é possível sair correndo para alcançar a flecha e fazê-la parar. Nesse caso, não há como impedir que toda uma sucessão de conseqüências se desencadeie. Somente sobre esta última forma de karma você não terá domínio.

Os três tipos de karma podem ser aplicados aos seus artigos.

A flecha na aljava

Você adquiriu um domínio, tem uma hospedagem e instalou o WordPress. O que você vai fazer com isso é um mar infinito de possibilidades. A internet está cheia de alvos interessantes que você pode visar ou não. Você pode inclusive deixar tudo como está.

A flecha no arco

Você escreveu seu primeiro artigo. É um texto furioso sobre política. Vai atingir pessoas importantes e tudo o mais. Você faz correções, checa os fatos, concatena os argumentos, corrige o português. Em suma, mira. Tenta atingir o mais próximo possível o seu alvo. E, finalmente, você está com o cursor sobre o botão “publish”.

É só apertar.

Quanto mais experiente você se torna, mais importante esse ínfimo momento passa a ser.

Flecha a caminho: agora tudo pode acontecer

Pense que talvez seu artigo não tenha o alcance que você gostaria. Ele não chegará até onde era seu objetivo. Tudo bem. Seu karma permanece inalterado ou será minimamente alterado.

Se ele chegar, haverá conseqüências. Outros blogueiros poderão escrever sobre o assunto e até quem sabe cabeças rolarão nos altos escalões do governo.

Note que nem todo o karma produzido diz respeito a você apenas. Ele afeta outras pessoas - objetos até - e esses karmas secundários podem se voltar ou não para você novamente. É uma espécie de reação em cadeia.

Você já assistiu ao filme Efeito Borboleta? É quase aquilo. Só que você não tem o poder de viajar para o passado.

Como controlar isso

Aprender a lidar com o karma positivamente para você e as pessoas que o cercam é uma arte. Segundo o conceito que vimos, você só tem o controle sobre o karma nas duas primeiras etapas. Então, até o momento de apertar o botão para publicar o seu artigo você pode mudá-lo ou mesmo apagá-lo, caso entenda que as conseqüências dele poderão ser maiores do que aquelas com que pode arcar.

Claro, você poderá se arrepender segundos depois e apagar o artigo

A capacidade de medir isso, no entanto, só vem com a experiência e, muitas vezes, na tentativa e erro. Tudo bem. Só idiotas não aprendem com seus erros.

Claro, você poderá se arrepender segundos depois e apagar o artigo. Mas tanto maior é o alcance de seu blog e o tamanho de sua audiência tanto mais difícil será alcançar a flecha.

Possivelmente, mesmo depois de apagado, os minutos em que seu texto ficou no ar já foram suficientes para ocasionar karma em maior ou menor grau.

Fui alvejado e agora?

É o tipo de coisa que se evita, mas é natural que o modo como você interage com as pessoas na internet, uma hora ou outra, acabe gerando desafetos. Nem pessoas que agem de maneira cordial estão livres disso.

Schopenhauer dizia que quem é amigo de todo mundo não é amigo de ninguém

Mas não se preocupe nem se aborreça ou fique triste. Isso é um bom sinal. O filósofo alemão Schopenhauer costumava dizer que quem é amigo de todo mundo não é amigo de ninguém.

Por isso será muito normal que uma hora ou outra alguém tente atingir você com um artigo, texto ou comentário.

Existem diversas maneiras de lidar com isso. Listo algumas:

  • Vias jurídicas: o karma dessa possível agressão pode ser esse. Um longo e desgastante processo legal. Por isso só o aconselho a adotar essa medida se há evidente prejuízo moral ou patrimonial.
  • Discussão: discussões em que não se visa um consenso - e em que se tenta impor e provar um ponto de vista - são desperdício de energia. Depois da troca de socos verbais cada parte sai dela com a mesma opinião com que entrou e com um provável olho roxo. Esse é um karma possível caso você se sinta ofendido. Então só o escolha se você visar a conciliação e se ela for possível, pois de outra forma de nada vai adiantar, só prolongando o círculo vicioso de respostas e respostas de respostas. Não é produtivo e você corre o risco de sair com fama de ranheta. É muito melhor dispor suas idéias - por mais amenas ou polêmicas que sejam - para quem quer acatá-las naturalmente do que tentar convencer alguém pela força. Afinal, não existe convencimento à força. Nem à força de argumentos.
  • Deixar passar: uma ofensa que não é aceita permanece com o ofensor. Sem falar que o desgaste permanece com aquele que a perpetrou. É o mesmo conceito daquelas artes marciais que usam a força do adversário contra ele mesmo. Você não contrariou a energia de seu ofensor, apenas a direcionou para uma parede de concreto, afastando-a de você. Essa idéia é boa. Mantém o seu karma no lugar - seja lá para onde você o esteja apontando (trabalho sério, artigos de qualidade para o seu blog, divulgação, etc). E o proprietário da ofensa sofreu a pior parte de seu próprio karma sozinho, sem que você precisasse dividir esse fardo com ele.

Prefiro a terceira, pois mantém o foco em atividades produtivas e eventuais desafetos se afastam naturalmente na medida em que cansam de importunar.

Mas nada impede o uso das outras duas.

A segunda pode ser divertida quando se domina o poder dos argumentos e se vê o embate verbal inútil como um passatempo.

Às vezes pode ser necessária para que não se fique passivo diante de ofensas a idéias e ideais que você considere fundamentais. Nesse caso, use as suas palavras para se posicionar diante dos seus e daqueles que possam a vir a se identificar com você. E não para se explicar ou rebater um desafeto. Mais uma vez, use a força dele contra ele mesmo e a seu favor.

E a primeira - a jurídica -, infelizmente, às vezes pode ser imperativa como salvaguarda de reputação e patrimônio.

O próximo artigo é Karma aplicado a blogs: comentários, maquinazinhas de gerar karma.

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  • 7 comentários ↓

    #1 Karma aplicado a blogs — QueroTerUmBlog.com! em 30.8.2007 às 11:37 pm

    [...] Karma aplicado a blogs: os artigos que você escreve são flechas → [...]

    #2 Wagner Fontoura em 31.8.2007 às 2:46 am

    Quantos de nós, se soubesse antes que seria assim, ainda assim se lançaria a essa deliciosa aventura que é blogar??? Quantos conseguem abandonar o “vício” depois de experimentar?

    #3 Alexandre Carvalho em 31.8.2007 às 6:11 am

    Oi, Alessandro!

    Como não encontrei teu e-mail aqui no blog, resolvi escrever nos comentários. É para te avisar que indiquei o “Quero Ter Um Blog” para o Blog Day 2007, que é hoje.

    Mais detalhes no link abaixo:

    http://linguadetrapo.blogspot.com/2007/08/blog-day-2007.html

    Abraço!

    #4 Alessandro Martins em 3.9.2007 às 10:41 am

    Alexandre… ao que parece, agora, nomes e tudo mais se acertaram. Desculpe o engano :-). Abraços!

    #5 Alessandro Martins em 3.9.2007 às 10:42 am

    Alguém deveria pensar em um curso de blogagem defensiva, a exemplo dos que há em direção… por aqui tem muita gente que gosta de blogagem ofensiva ainda… rs. Abraços do Ale, Wagner.

    #6 Carol Rodrigues em 3.9.2007 às 3:12 pm

    Eu sempre vi o assunto de karmas como conceitos religiosos - e de uma religião que não pratico

    Interessante a tua abordagem

    #7 Alessandro Martins em 3.9.2007 às 4:16 pm

    Para os religiosos mais fervorosos, você pode explicar da seguinte maneira, Carol: a Lei da Gravidade é para todos, não importa se você é católico ou evangélico. O karma funciona da mesma forma. É uma lei natural. Beijos do Ale.

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