A Jacqueline Lafloufa, do blog Pensamenteando, perguntou-me por email que estratégias uso para escrever bem.
É daquelas perguntas perigosas, pois ao respondê-la corro o risco de parecer excessivamente vaidoso, dando a entender que concordo com a afirmativa de que escrevo bem.
Respondo-a, por isso, com o tom de quem foi indagado sobre o que faz para escrever melhor ou, ainda, o que faz para escrever menos mal.
Ainda sob o risco, naturalmente, de parecer falsamente modesto. Mas, enfim, escrever sempre é cheio de riscos - o maior deles é ser incompreendido ou, ainda mais terrível, ser compreendido até o osso - e, portanto, chega de dar voltas.
Já cheguei a publicar aqui, e em outros lugares, listas com dicas de grandes mestres. Na verdade, escrever não funciona como uma receita de bolo. Você pode até seguir um prontuário passo a passo, mas nem a matemática funciona desse jeito.
Então, segue minha resposta à Jacqueline:
Jacqueline,
a resposta é ampla, mas tentarei ser breve.
Em primeiro lugar deve-se gostar do que se faz. Não faço questão de que meu mecânico seja um bom escritor, mas certamente vou admirá-lo se consertar meu carro com arte. E ele só chegará a esse ponto se gostar do que faz.
Não sou bom com carros e nem gosto muito deles, mas acho que meu mecânico nem espera isso de mim. Na certa, quando trato mal da calibragem de meus pneus ele me olha tão torto quanto eu o olho quando ele conjuga errado um verbo. Claro que eu não o olho torto - não ligo para essas coisas -, mas acho que esse é um bom exemplo que uso para chegar onde eu quero chegar.
Se descobri que gosto de escrever e decidi trabalhar em uma área que exige boa escrita, é certo que precisarei escrever todo dia. E para conseguir fazer isso com qualidade preciso aprender um modo de fazê-lo com prazer. Ou o ato da escrita se torna amargo, obrigatório, cartão-ponto.
Um texto pode ser amargo, mas o ato de escrevê-lo não. Deve ser libertador. Seja lá o que você liberte, anjos ou demônios.
Então escrever, para mim, surge dessa necessidade de se exercitar aquilo de que se gosta.
E as pessoas, por incrível que pareça, costumam se afastar daquilo que gostam. Alguns adoram pescar, mas não vão porque sobra pouco tempo ou porque não dá dinheiro. E eu pergunto: porque estamos no mundo se não para experienciar as coisas de que gostamos?
E essas pessoas ficarão surpresas: há quem ganhe dinheiro (muito) pescando.
Portanto: qualquer pessoa precisa ter disciplina para exercer as coisas que lhe dão prazer. Isso vai de escrever, passando por pescaria, a sexo. Não é à toa que existem casais que, depois de muito tempo juntos, deixam essas coisas de lado. Acabam se voltando para suas neuroses - o medo tem um poder atrativo incrível quando estamos sós em nossas mentes - e não para seus prazeres.
O mesmo vale para escrever ou qualquer outra atividade que você julgue prazerosa.
Então, minha estratégia para escrever bem - para escrever melhor ou, mais acertadamente, escrever menos mal - é escrever sempre. Ler bastante ajuda. Mas ler bastante ajuda sobretudo a ler melhor.
Para escrever bem, escreva. A toda hora.
Deixe seus dedos irmanados com o teclado ou com a caneta ou qualquer outro objeto que use para se expressar. Meu mecânico é muito bom com chaves de fenda, alicates, parafusos e quetais. Ele adora carros e mexe com eles todo dia e com alegria.
Então a dica é: primeiro se conheça. Descubra do que você gosta. Se você gosta de escrever, não se negue a essa atividade. Entregue-se a isso e entregue isso a você. Escreva como se sua vida dependesse disso e, de certo modo, pelo menos para mim, depende.
Vai chegar o momento em que sua atividade - escrever ou consertar carros - será desempenhada com naturalidade e, do mesmo modo, o prazer virá naturalmente. E tudo aquilo que desempenhamos com naturalidade fica além da crítica.
Se vivemos com naturalidade, os outros nos vêem à vontade no mundo. Ficamos bonitos e o que produzimos também.
Espero que eu tenha ajudado.
Abraços do Ale.
É uma resposta mais longa do que eu gostaria e mais vaga também. Mas não estou bem certo se existe melhor maneira de fazer algo bem senão gostar do que se faz e aprender a gostar desse algo mais e mais a cada dia.

16 comentários ↓
Gostei da pergunta, adorei a resposta. Concordo a 100%.
bjs
Ana
Melhor Resposta impossível
abraços
Obrigado, Ana! Me diga: ao que parece você é de Portugal.
Beijos do Ale!
Marco,
acontece que estamos na mesma escola.
Abraços do Ale.
Eu penso quase que exatamente da mesma forma.
Eu adoraria que uma professora que tenho, de prática textual, pensasse assim. Aqueles academicismos e regras que se aprende na faculdade só afasta quem gosta de escrever.
Abraços
“Na certa, quando trato mal da calibragem de meus pneus ele me olha tão torto eu eu o olho quando ele conjuga errado um verbo.” - Acho que tem algo estranho ai =)
Excelente texto, prabéns.
Guido. Obrigado pelo toque… um dos maus da edição facilitada pelos computadores… tudo é provisório e o desleixo facilita os erros… já arrumei. Abraços do Alessandro.
André,
universidades, faculdades e quetais, na maior parte das vezes - se não é o esforço de poucos alunos e pouquíssimos professores - servem para apenas formar. “Formar”. O nome já diz. Formar.
Abraços!
Carlos Drummond de Andrade disse uma vez: “Escrever é cortar palavras”. Talvez concorde com isso quando na redação de um jornal meus textos tenham que se limitar em apenas uma lauda. Entretanto, no meu canto (blog) deixo com que meus dedos enxerguem o teclado como um playground.
Belo texto. Explicação melhor não há!
Glauber,
textos de jornal, habitualmente não são para quem gosta de ler… há muito tempo, desde que inventaram o lead, deixou de ser. Quem bom que há os blogs…
Abraços do Ale.
[...] — Alessandro Martins, no blog QueroTerUmBlog.com! em resposta a uma leitora sobre como fazer para escrever bem melhor (ou menos mal). [...]
Olá Alessandro,
Que metáfora mais pertinente essa do mecânico hein! Ponto pra você.
Ao ler seu artigo me veio à mente uma das máximas do historiador, jornalista e também escritor Paul Johnson: “Escrever é transbordar”!
Você transbordou na resposta. Obrigado e parabéns por tê-la compartilhado conosco.
[...] bem. Para o Tiago Dória e o Michel Lent, o mais importante é a prática e a leitura constante; o Alessandro também acredita que ler ajuda, mas o essencial, segundo ele, é gostar do que se faz, e fazê-lo [...]
está bem.. mais enquanto ao fato de gostar de escrever mais não saber sobre o que escrever ?
Adoro ler blogs adoro escrever. adoro me expressar do modo possivel sempre . Mais antes eu escrevia sempre por causa da escola. Mais tinha sempre um tema pra desenvolver. E agora que terminei, nunca sei sobre o que falar. Tenho dificuldade. Sempre entrando em blogs vejo como um texto é melhor que o outro como voces escrevem bem mesmo.. porem não tenho mais esse dom. Já tive alias tenho um blog. Mais ah anos que esta largado por falta do que escrever.
BjS
Laís,
a internet oferece uma infinidade de temas sobre os quais escrever. A vida oferece. É só ficar atenta aos seus impulsos e interesses.
Talvez isto ajude:
http://queroterumblog.com/2007/09/01/23-fontes-de-conteudo-para-seu-blog-falar-pelos-cotovelos-sem-parar/
http://queroterumblog.com/2007/07/29/31-tipos-de-posts-para-abastecer-seu-blog-infinitamente/
Abraços!
Cobbi,
obrigado por ler meu transbordamento
Abraços!
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