Eu já havia apresentado o cartunista Austin Kleon em um post de meu blog sobre livros.
A seguir, no post How to Blog, eu vi a ilustração abaixo:

A editora do Ave, Palavra foi mais rápida e publicou a sua tradução.
Mas, basicamente, é o seguinte:
- Como blogar: 1) admire algo. 2) chame outros para se admirarem também.
Segundo o autor, com razão, isso se aplica a outras atividades como ensinar ou fazer arte.
Nas coisas mais simples, os ensinamentos mais importantes.
Não espere encantar as pessoas a respeito de algo se você mesmo não se encanta.
A maneira como o blog surgiu certamente tem muito a dizer sobre o que essa ferramenta é e sobre o que ela virá a ser.
John Barger já disse e eu já repeti isso aqui algumas vezes:
Um blog verdadeiro é um log de todos os sites que você gostaria de salvar ou dividir. (Então, hoje, o del.icio.us é melhor para os bloggers do que o próprio Blogger).
Barger mata a charada.
O blog como o conhecemos hoje já não assume essa função de ser mero repositório de links e registro de navegação.
Outras ferramentas passaram a ocupar essa função que não deixa de ser importante:
Com a nova possibilidade de compartilhamento de qualquer página visitada pelo leitor, o Google Reader supre de maneira fácil, rápida e eficiente essa característica fundamental dos blogs “de raiz”.
Repito-a: ser um “log de todos os sites que você gostaria de salvar ou dividir”.
Se você não é usuário do Google Reader e, ainda assim quer ver por onde ando e de onde saem algumas de minhas idéias, pode acompanhar meus artigos compartilhados no seguinte endereço:
Note que agora é muito simples também acrescentar uma pequena nota, uma observação sarcástica ou um adendo espirituoso ou simplesmente palavras explicativas ao link, como recomenda o próprio Barger.
Muito bem. Compartilhar links, agora, é automático, rápido, barato, grátis e certamente surgirão outras ferramentas de outras empresas, as atuais serão aperfeiçoadas e essa função passa a um outro nível.
Isso, caro leitor, cara leitora, é o que era o blog quando ele nasceu, há pouco mais de dez anos. Apresentar a um suposto leitor aquilo que já estava na web.
O que hoje chamamos de blog é uma outra coisa, que pode - caso você queira - ter uma outra função. Uma função, que diga-se de passagem, assume há muito tempo sem que isso tenha sido decretado, no entanto:
- trazer você, autor, para o contato com outros autores e leitores.
Entramos oficialmente em uma era, senhoras e senhores, em que o que hoje chamamos de blog é a ferramenta para trazer para a web - e por web entendo não a rede de computadores, mas a de pessoas - aquilo que ainda não está nela.
Algo único: sua vida, sua experiência, suas opiniões, seu conteúdo.
Você.
Eu já falei sobre como é essencial oferecer os feeds por email.
Hoje eu estava lendo um artigo do blog Diário de um Policial Militar em que o editor expõe o número de seus assinantes de feed.
Mais uma vez, aqueles que lêem os textos em suas caixas de entrada supera em muito o número de qualquer agregador em separado.
- as pessoas não sabem o que é RSS
- as pessoas não querem saber o que é RSS
- as pessoas, por outro lado, sabem o que é email
- logo, funciona
- quem realmente sabe o que é RSS não precisa ter o símbolo de RSS visível para assinar o feed de seu blog
- então, pelo menos para mim, oferecer a leitura por email destacadamente, é mais importante que colocar o símbolo de feed em destaque
Ah, mas você notou que, neste blog, eu não ofereço o feed por email. Pois é. Eu tenho a esperança de que quem quer ser um blogueiro eficiente já saiba como funciona essa importante ferramenta.
Mas a questão é outra.
Ter leitores de seus artigos por email aumenta a sua responsabilidade na hora de escrever.
Imagine uma caixa de entrada contemporânea - que não seja do GMail, que bloqueia o Spam com relativa eficiência. Descartando-se o Spam, uma caixa de entrada está repleta de correntes, mensagens automáticas que você mesmo pediu para serem enviadas e uma ou duas mensagens realmente importantes.
Com esse ambiente já tomado, o leitor ainda assim decidiu receber seus posts por email.
Não é apenas uma honra, um privilégio.
Você precisa tomar o cuidado de pensar no que escreve, de maneira a ser aqueles dois ou três emails realmente importantes e não um daqueles emails automáticos em que o sujeito se inscreveu e vai se esquecendo de cancelar, deixando que a irritação por recebê-los cresça até não agüente mais você.
Você já tem muitos assinantes por email? Então pense nisso.

O livro Desvendando os Quadrinhos, de Scott McCloud, ajuda a entender não só as HQs como as artes em geral. Bem como qualquer outra atividade que exija criação. É um dos livros mais bacanas que já li, todo escrito em quadrinhos.
No capítulo 7, McCloud apresenta os 6 passos da criação:
- Idéia/Objetivo
- Forma
- Idioma
- Estrutura
- Habilidade
- Superfície
A ordem é essa. Mas, na prática, ela se dá ao contrário. Os novatos em uma atividade - seja ela os quadrinhos, seja ela um blog, cinema ou literatura - partem da superfície para o cerne, para o interior.
Por isso, às vezes temos a impressão de ver um produto artístico fabuloso na superfície, porém oco. Oco em diversos sentidos.
Então, vamos ver, a partir de agora todos os seis passos apresentados pelo autor, mas ao contrário.
- Superfície - valores de produção, acabamento. Os aspectos mais aparentes na primeira exposição superficial da obra.
- Habilidade - construir a obra, usar de habilidade, conhecimento prático, invenção, realizar o trabalho
- Estrutura - juntar tudo. O que incluir. O que excluir. Como arranjar, como compor o trabalho.
- Idioma - a escola da arte, o vocabulário de estilos ou gestos, ou assuntos, o gênero ao qual a obra pertence.
- Forma - a forma que o trabalho assume: um livro, um desenho a giz, uma cadeira, uma canção, uma escultura, um gibi, um blog?
- Idéia/objetivo - os impulsos, as idéias, as emoções, as filosofias, os objetivos da obra.
Claro que as coisas não acontecem necessariamente nesta ordem, mas elas estão organizadas do item mais externo para o mais interno.
Vejamos o que diz McCloud:
Em todas as artes, é a Superfície que as pessoas apreciam com mais facilidade, como uma maçã escolhida por sua casca brilhante.
O artista do momento de que o fã mais gosta, às vezes parece melhor do que os antigos, que tiveram as idéias, mas estavam menos interessados na superfície.
Só que, quando mordemos aquela maçã brilhante… vazia.
Como funciona
Um jovem leitor de blogs está acompanhando os feeds de um de seus blogueiros favoritos quanto têm a idéia:
- Vou ser editor de blog quando crescer.
Ele já tem suas idéias e escolheu os blogs como forma de expressão.
Mas ele ainda não sabe que tipo de blog quer fazer. Por isso, o mais provável é que ele comece a estudar e a imitar o estilo de outros editores já conhecidos.
Ele mostra o seu blog para seus amigos e todos adoram.
Mas quando ele cria coragem e deixa um comentário no blog de um profissional, convidando-o para conhecer o seu trabalho de iniciante, tem uma surpresa.
O profissional, que se dignou a visitar o blog dele, observa várias coisas a melhorar caso o rapaz queira seguir na carreira. De gramática, links, títulos, aspecto gráfico e melhorias para mecanismos de busca até ao modo como ele dialoga com seus leitores, passando por inúmeras outras minúcias.
O rapaz continua a estudar e se aperfeiçoar nesses assuntos por alguns meses, mas o estalo não acontece. Ele pára na superfície e desiste.
A saga continua
Em algum outro lugar do planeta, uma garota ultrapassa a superfície e passa a entender as partes mecânicas, de programação e textuais.
Depois de muito estudar ela ultrapassa a superfície e ganha a habilidade para fazer um bom blog. As coisas funcionam como devem funcionar e talvez a essa altura ela já tenha um número razoável de leitores e, se for o caso, terá aprendido a remunerar o seu blog pagando pelo menos a hospedagem.
Porém, ao mostrar o trabalho a um profissional, ele demonstrará que, de fato, ela tem a habilidade para criar e manter um blog. Mas ainda não enxerga o que há por trás disso. As estruturas que fazem com que um blog funcione e que estão para além da programação, do texto e da capacidade de remuneração.
Pode ser que ela decida ficar por aí, feliz por fazer parte do mundo dos blogs.
Tem que ter estrutura
Há coisas que não se ensinam nos livros ou em sites da internet e só se aprende com a observação e com o andamento da criação e da leitura - num sentido amplo da palavra.
Um outro jovem editor pode acabar descobrindo que seu blogueiro favorito era, na verdade, uma versão diluída de outro mais antigo e menos refinado.
Logo, ele passará a ver além das técnicas mecânicas (edição de texto e imagens, programação e SEO) e passará a ver além. A estrutura por trás da estrutura que torna aquele cara bom.
Além e além
Mas é possível ir mais longe. Depois que se atinge esse ponto, um outro autor poderá descobrir que há diversas pessoas que, como ele, perceberam o funcionamento íntimo de seu meio de expressão. No caso, estamos falando de blogs.
O que esse autor quer é desenvolver uma voz própria, uma identidade: um idioma.
Então ele poderá começar a criar novas maneiras de mostrar “as mesmas velhas coisas” e desenvolve técnicas inovadoras, passando a se livrar das antigas.
Creio que não é preciso dizer que falar sobre as mesmas velhas coisas de maneiras inovadoras cria aspectos novos sobre antigos assuntos, ajuda a encontrar soluções para antigos problemas, faz o mundo andar. Às vezes não é suficiente mudar o ângulo de abordagem. Às vezes é preciso mudar o olho.
Jardim dos caminhos que se bifurcam
Então um outro blogueiro descobriu uma linguagem própria. Algo que faz com que os iniciantes passem a imitá-lo de alguma maneira, muito embora só consigam chegar à superfície. Porém, em sua opinião algo está sendo esquecido.
Ele precisa agora optar por dois caminhos.
A pergunta consiste no seguinte: através do meu trabalho quero dizer algo sobre o mundo ou dizer sobre meu trabalho em si?
Ao escolher a forma, escolhe-se o trabalho em si. O autor se torna um explorador, abrindo caminhos para outros que queiram usar esse tipo de forma como meio de expressão. Para ele, as idéias são a substância, o pretexto para expressar a sua forma.
Ao escolher a idéia, o trabalho vira a ferramenta do que ele gostaria de dizer: ele tem uma idéia e teria que expressá-la, não importa usando o quê. Música, literatura, blogs, moda gastronomia, seja lá que forma cada uma desses trabalhos assumam.
Mas, obviamente, a opção entre idéias e forma não são permanentes. E não são abolutas não importa em que trabalho. Pode-se observar a prevalência da forma em alguns momentos e das idéias em outros.
Conclusão
Este texto é uma mera adaptação de uma parte do livro de McCloud e recomendo que o comprem. É muito divertido e instrutivo.
Então, deixo com você a conclusão do quadrinista, muito embora ele vá ainda além nesse capítulo que expus:
Qualquer artista que cria uma obra, em qualquer meio, vai seguir esses seis passos, mesmo sem perceber.
Todas as obras começam com um objetivo, todas têm uma forma, pertencem a um idioma, possuem estrutura e têm uma superfície.
A ordem desses seis aspectos é inata. Os ossos de um dinossauro podem ser descobertos em qualquer ordem, mas, quando reunidos, se encaixam num lugar.
Considerei que, apesar do texto ser dirigido especificamente aos quadrinhos, ele se aplique não só a eles e não só a qualquer arte, mas a qualquer trabalho que exija de seu executor uma boa dose de criatividade.
Segunda-feira passada, 31 de março, a chefe do departamento da empresa em que eu trabalhava chamou-me para uma conversa em particular.
Não tinha boas notícias, disse de início.
Assim, foi logo falando que embora eu fosse um excelente profissional, o jornal não precisava neste momento dos serviços que eu sou capaz de desempenhar. Sim. Reconheço. Sou muito bom.
Mas coroou seu lisonjeiro raciocínio dizendo que, para o trabalho que precisava que eu fizesse poderia contratar dois sujeitos pelo mesmo investimento.
Considerando que eu já estava na empresa há 10 anos cheguei a ficar um tanto abalado, digamos, por cerca de 30 minutos.
Liguei para minha namorada que vive comigo já há dois anos e dei a notícia.
Ela veio para casa e começamos a fazer as contas.
Foi aí que o abalo inicial se transformou em felicidade.
Percebemos que os valores que estou auferindo através de meus blogs e diversos projetos relativos a eles são praticamente os mesmos que eu obtinha do salário.
Porém, com diversas vantagens.
- Iniciativa e flexibilidade. Agora terei mais tempo para ampliar ainda mais minhas iniciativas. Isso, sem dúvida, significará aumento de remuneração.
- Dinamismo. Um salário é uma segurança e é bom: eu sei disso, pois desde o início de minha carreira profissional contei com um. Mas toda segurança pode conduzir à acomodação.
- Meu horário de trabalho é flexível. Quinta-feira passada adiantei o trabalho de sexta-feira e tirei o dia seguinte de folga. Ganhei os mesmos valores como se estivesse trabalhando. Senti-me como se tivesse descoberto a pólvora.
- Meu local de trabalho é flexível. Neste momento em que digito estou na minha cama, com a mulher que amo ressonando ao meu lado enquanto observo o nosso pequeno jardim e a luz do sol penetra por uma suave cortina alaranjada. Mais tarde estarei em um dos agradáveis cafés com wi-fi aqui do Alto da Glória.
- Trabalho motivado: parei de fazer investir seis horas dos meus dias úteis e eventualmente algumas horas dos fins de semana em um trabalho cujos objetivos nem sempre diziam respeito ou se harmonizavam com os meus. Ainda que fosse pago por isso, respeitasse meus colegas, fosse respeitado por meus superiores hierárquicos e não tenha absolutamente nenhuma queixa do ambiente em que trabalhei; ao contrário só tenho boas lembranças.
- E acima de tudo. Parei de ser pago para sonhar o sonho de outra pessoa e passei a sonhar os meus próprios sonhos.
De repente, foi como se meus olhos se abrissem e eu percebi que vender meu bem mais precioso - o meu tempo de vida - para quem quer que seja passou a ser algo absurdo.
Afinal, o tempo de vida de um homem é curto e sua maior utilidade é amar pessoas como sua namorada, seu pai, sua mãe, seus amigos. Pessoas para quem ele quer dar esse tempo.
Não que não estejamos sempre vendendo esse tempo, de um jeito ou de outro. Mas quanto menos intermediários nessa negociação melhor. A idéia, daqui pra frente é essa, suprimir cada vez mais os intermediários entre mim e o verdadeiro valor do meu tempo.
E, olhando para essa garota aqui ao meu lado, concluo que estou, cada vez mais, conseguindo.
Torço para que você também consiga.