Coisas que Muhammad Ali ensina a um editor de blog em 6 rounds

Muhammad Ali versus Sonny Liston

Assisti a um documentário sobre a vida do boxeador Muhammad Ali neste fim de semana. Inspirado pela vida de um dos maiores atletas do século XX e como praticante neófito de boxe, decidi escrever um artigo sobre seis das qualidades desse boxer que podem servir a qualquer um que queira editar um blog com qualidade. Mesmo a quem não aprecia o esporte.

Primeiro Round

Ele sabia falar às massas.

Alguns o consideravam um fanfarrão, um papudo.

Mas Ali sabia o que estava dizendo: “Sou o mais bonito, o mais forte, o mais rápido e o mais humilde e por isso mereço ser o campeão”, costumava dizer. “Flutuo como uma borboleta e pico como uma abelha. Sou tão rápido que desligo o interruptor e estou na cama antes que o quarto fique escuro.” Tinha ótimo humor.

Fez poesia e rap antes de alguém imaginar que isso viraria moda, atuava, discursava e até cantava.

Um editor de blog deve estar pronto para chegar perto disso. Ainda que tenha um público de dois ou três leitores apenas, deve imaginar que fala a uma multidão ao mesmo tempo em que diz coisas a cada um dos que compõem essa multidão individualmente.

Além disso não basta ao editor de blog saber apenas escrever. Ele precisa dominar umas dez habilidades, entre elas um pouco de design, programação, marketing, e talvez até dança, como vimos no último Blogcamp. E duas delas, pelo menos, deve desempenhar bem.

Segundo Round

Muhammad Ali sabia improvisar.

Improvisar quer dizer: saber que papel assumir em situações inesperadas em determinada cena.

As cenas de Ali eram desempenhadas em um ringue. E, ainda que mantendo-se ao seu estilo, ele sabia como se encaixar naquilo que o outro lutador lhe exigia para ter o melhor resultado, recriando-se instantaneamente.

O editor de blog deve estar pronto a abordar assuntos atuais de uma forma inovadora e original, acrescentando ao tema, em vez de apenas reproduzir o que foi visto em algum outro blog.

Ainda que não domine o assunto, vai pesquisar e, dentro de seu campo de domínio, vai abordá-lo de uma maneira que agrade o seu leitor e conquiste outros. Diante de uma situação nova e inesperada, o editor vai saber que posição tomar e que papel assumir. Isso é improvisar: improvisar, por incrível que pareça, exige muito planejamento.

Terceiro Round

Muhammad Ali planejava.

Assim como o samurai Musashi, o boxeador ganhava suas lutas antes mesmo que elas começassem.

Musashi costumava chegar minutos atrasados a seus duelos a fim de desestabilizar seu adversário. Ali provocava os seus durante semanas antes das lutas, minando os nervos de quem quer que fosse.

E, por mais que os outros lutadores tentassem fazer o mesmo com ele, não conseguiam. Ou por falta de traquejo ou por falta de confiança ou por instabilidade emocional.

Enfim, a luta de Ali não acontecia apenas no ringue.

A luta do blogueiro não acontece apenas no blog. O objetivo do editor, no entanto, não é desestabilizar ninguém. É conquistar leitores. Para isso, deve planejar como vai agir fora de seu blog. Para isso, deve atuar com coerência nos sites sociais, como o Rec6, Orkut, fóruns e nos comentários de outros blogs, inclusive através de trackbacks.

Quarto Round

Ali tinha princípios e os seguia.

Quando não quis servir no Vietnã foi julgado e impedido de lutar nos Estados Unidos.

Dizia que não iria para a guerra porque não tinha nada contra os vietcongs, afinal nenhum deles nunca tinha agido de forma racista contra ele ao passo que muitos brancos americanos sim.

Diante disso, jogou fora a medalha olímpica que ganhou pelos EUA anos antes. E mesmo sob ameaça de prisão não recuou.

O editor de blog deve ter princípios e segui-los com liberdade. Os princípios de um editor que queira conquistar um público fiel podem estar ligados a coisas como a sua verdade, credibilidade e comunicação direta e criativa com seu público. Jamais recue e você terá sucesso. Talvez não como editor de blog, mas certamente como ser humano.

Quinto Round

Ali era inspirador.

Algumas pessoas o comparam com Nelson Mandela e com Martin Luther King. Malcom X era seu amigo. Provavelmente suas palavras movimentavam mais as pessoas do que seus punhos.

Todo mundo – e pode apostar que até mesmo Ali – acaba se mirando em exemplos, reais ou não, para se tornar alguém melhor e para melhorar o mundo ao redor, num diâmetro maior ou menor.

Além disso, não era apenas o fato de Ali ganhar uma luta que importava, mas como ele ganhava. E era de tal forma que, mesmo nas poucas vezes em que ele perdeu, o vencedor saía derrotado. Mesmo quem não apreciava a nobre arte do boxe se dobrava à sua personalidade.

Novamente, imagine que você está falando a uma multidão e que você pode tornar o ambiente em que você você trabalha – seja ele a internet, seja ele um escritório ou um banheiro público – ainda melhor de variadas formas.

Seja o jeito como você distribui links, seja o modo com que você coloca uma idéia ou a maneira mais eficiente de limpar uma privada, meu chapa.

Inspire as outras pessoas e sinta-se inspirado em tudo aquilo que você faz. Mude o mundo ainda que o mundo seja a sua mesa. Vai fazer diferença.

Sexto Round

Ali nunca desistiu.

Algumas pessoas olham com pena para ele por ter ficado com uma síndrome parkinsoniana, ocasionada pelo dano encefálico depois de tantas lutas.

Pois, ao contrário, ele considera que o seu período de lutador de boxe foi apenas um prelúdio para as outras lutas mais importantes e encara a doença com a mesma disposição com que encarava seus adversários, sem nenhuma auto-comiseração.

Até hoje ele usa o positivamente o prestígio de sua imagem e defende diversos de seus ideais no Muhammad Ali Center:

The Ali Center’s innovative and immersive visitor experience, public and educational programming, and global initiatives – including conflict resolution training and management – carry on Muhammad’s legacy and continue his life’s work. Two-and-a-half levels of interactive exhibits and captivating multi-media presentations present Ali’s life story through the six core values of his life: respect, confidence, conviction, dedication, giving, and spirituality. Ultimately, the Ali Center strives to inspire you to pursue your potential and explore the greatness that lies within yourself.

Da mesma forma, um editor de blog não deve desistir nunca. A maioria, ao ver que depois de duas semanas de trabalho duro em cima de seu blog os resultados não são os esperados, desiste. Ninguém disse que ia ser fácil. Se fosse fácil qualquer um faria.

Não desista mesmo frente às maiores dificuldades. Não desistir não é garantia de conseguir sucesso.

Mas é o único jeito.

É. Não é para os fracos, cara-pálida.

A imagem usada para ilustrar este artigo é a mundialmente conhecida fotografia feita por Neil Leifer na luta Ali versus Sonny Liston, em 1965. Era a revanche de um combate ganho por Ali em 1964. Já no primeiro assalto, Muhammad acertou um soco – aparentemente fraco – em Liston, que foi ao chão. Dizem que o adversário devia pra máfia ou coisa assim. Ali ficou chamando o outro de volta para a briga, mas Liston preferiu tirar uma soneca na lona.

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  • 23 comentários ↓

    #1 Rael B. Riolino em 28.8.2007 às 3:13 pm

    Mais uma vez, uma matéria dígna de louvor!

    Parabéns Alessandro, você consegue se superar a cada post!

    Dicas muito boas, e expostas de uma forma espetacular!

    Grande Abraço!

    Rael

    #2 Mário em 28.8.2007 às 5:39 pm

    Ótimo comparativo, Alessandro. Parabéns!

    #3 Leandro F. em 28.8.2007 às 6:17 pm

    Belo post. Já pode criar uma categoria: posts literários. rs

    Abraço

    #4 Silveira Neto em 28.8.2007 às 7:37 pm

    ótimo post, e principalmente, excelente arte gráfica.

    #5 Alessandro Martins em 28.8.2007 às 7:56 pm

    Obrigado, Rael! Espero melhorar cada vez mais. Com o crescimento da rede brasileira de blogs nos próximos anos será absolutamente necessário…

    #6 Alessandro Martins em 28.8.2007 às 7:57 pm

    Valeu, Mario. É difícil fazer algo que fique à altura do Ali… abraços!

    #7 Alessandro Martins em 28.8.2007 às 7:59 pm

    Opa, Leandro. Quem sabe a gente começa a entrar em outro patamar de blogagem… Abraços!

    #8 Alessandro Martins em 28.8.2007 às 8:00 pm

    Pois é, Silveira. Se agora que os blogs são ferramentas gráficas um tanto limitadas já dá para fazer algumas brincadeirinhas, imagine quando tivermos mais recursos… mas na verdade, acho até bom. Nos deixa mais graficamente econômicos e cleans. Abraços!

    #9 Silveira Neto em 28.8.2007 às 8:09 pm

    Alessandro, que bom que você não se contenta com as possibilidades gráficas dos blogs.
    Em geral, quem mexe artes gráficas também pensa assim, e eu também. No eupodiatamatando.com eu costumo mexer muito comunicação gráfica, além do texto. Eu fico indignado quando eu vou por exemplo numa post de um site de jornal, e não tem nem sequer uma foto do ocorrido. Pra que hipertexto então?

    Um abraço.

    #10 Alessandro Martins em 28.8.2007 às 8:13 pm

    O mais chato é a falta de links, nesse caso, Silveira. Mas a falta de fotos, às vezes, é por falta de fotógrafo mesmo e por economia… fotos de agência às vezes são caras… tem jornal que até raciona… no máximo duas ou três por dia. :-)

    #11 Silveira Neto em 28.8.2007 às 9:02 pm

    Alessandro, falta de links é um problema sério mesmo. No G1, eles até melhoraram um pouco depois de todo mundo criticar muito, quase não haviam links. Colocam uma matéria e o único link que colocam são para artigos que são deles mesmos. Absurdo.

    #12 MaxRaven em 28.8.2007 às 9:05 pm

    Caro Alessandro,
    Fantástica comparação, gostei muito, inclusive acho que assisti o mesmo documentário, bem como um outro sobre o Don King que se fez justamente com uma luta entre Ali e Foremam (aquele do grill) na África, mostra essas e outras facetas deste grande lutador, não só no esporte, como na vida.
    Falando no Don e no Foremam, esses também poderiam ser objeto de comparações como essa, a vida de ambos tem muitos exemplos, tanto para o bem como para o outro lado da “força” :-)

    #13 Alessandro Martins em 28.8.2007 às 9:51 pm

    Sei de que luta está falando, Max… The Rumble in The Jungle… “Ali Bômaiê! Ali Bômaiê!”… tem um livro inteiro do Norman Mailer só sobre ela. Quanto a mais comparações dentro desse universo do boxe, acho genial, mas vou dar um tempo por enquanto pois senão o pessoal que mudei o assunto central daqui ;-) Abraços, meu caro!

    #14 box e blog « Monitorando em 29.8.2007 às 12:55 am

    [...] Alessandro Martins conta o que Muhamad Ali ensina a um blogueiro em seis rounds. [...]

    #15 Neto em 1.9.2007 às 4:19 pm

    Simplesmente excelente!
    Passo a considerar a leitura de seu blog “obrigatória” para mim.
    Há muito que esperava encontrar um blog dessa qualidade.

    nem sei como agradecer! Valeu! :)

    #16 Alessandro Martins em 1.9.2007 às 4:49 pm

    Opa! Espero agüentar mais que seis rounds então, meu caro. Talvez os 15 habituais ou, talvez, com mais sorte e persistência, centenas! Abraços, do Alessandro.

    #17 CA’BIANCA Comunicação & Relacionamento » Blog Archive » Blogs podem ser encarados como start-up? em 14.9.2007 às 10:21 pm

    [...] ou que sua pretensão seja maior, o modelo é o mesmo e devemos aproveitar as experiências de outros segmentos, se forem mesmo [...]

    #18 Fernanda Nogueira Schuttz em 26.9.2007 às 5:28 am

    Cassius Clay era mesmo demais. Sua luta com George Foreman, em 1974, foi um dos maiores acontecimentos do boxe. Tenho esse documentázrio e não me canso de assistir.

    #19 Alessandro Martins em 26.9.2007 às 10:32 am

    Provavelmente, Fernanda, nenhum evento esportivo atingiu tamanha importância que ia além do evento e dos esportistas em si como esse… The Rumble in the Jungle…

    #20 Adir DE Oliveira em 29.10.2007 às 9:23 pm

    Realmente o que escreveu, concordo plenamente. Ali ao meu ver não é só maior pugilista do século xx, mais sempre será o maior pugilista de todos os tempos.Assim como Pelé é o maior jogador de futebol de todos os tempos.Ali, é o maior devido ao seu cárater e sua ânsia de vencer e combater todos os tipos de racismo.Muitos deveriam se espelhar em sua figura. Abraços

    #21 Alessandro Martins em 29.10.2007 às 9:25 pm

    Sem falar que ele era um figuraço, não é mesmo, Adir? Abraços e seja sempre bem-vindo a este blog.

    #22 alexandre maciel em 25.2.2009 às 5:36 am

    “impávido que nem Muhammad Ali ” caetano veloso

    #23 Kleber em 7.12.2009 às 11:45 am

    Matéria sensacional. Adorei conhecer mais sobre essa lenda do esporte.

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