Como você vai mudar o mundo usando um blog

O que você é fala tão alto
que não consigo ouvir o que você está dizendo.
Ralph Waldo Emerson

Os blogs teriam surgido para replicar aquilo que já havia na rede.

Isso não está de todo errado, afinal, segundo Jorn Barger, pioneiro dos blogs, eles nada mais são que web logs, logs de navegação na rede.

As raízes de um suporte de comunicação não podem ser negadas, mas não há razão para que as coisas continuassem assim limitadas.

Por isso, não demorou para que essas raizes ganhassem um tronco e se desse um segundo passo.

Os blogs começaram então a trazer para a rede o que havia fora dela. As pessoas.

E elas – você e eu – passaram a expressar coisas do mundo.

Primeiro, as coisas do mundo subjetivo – transformando os blogs em diários virtuais, conceito que ainda perdura.

Depois, um passo para pernas mais longas, as coisas do mundo mais ou menos objetivo: notícias, pontos de vista sobre essas notícias, opiniões, acontecimentos, oportunidades de negócio, educação e todas as outras coisas que um blog – por ser um suporte absolutamente versátil – aceita.

Esta é uma visão bem esquemática e não direi que tudo é assim ou assado ou que segue para uma mesma direção ao mesmo tempo, pois é claro que essas diversas fases de que falo, na prática, convivem.

Porém não há dúvida de que os blogs que farão diferença – no sentido de abrangência, pois não quero que pensem que os blogs mais pessoais não são importantes em seu conjunto – serão aqueles que conseguirem trazer o mundo – ou pelo menos a parte dele que envolve o editor – para dentro da internet.

Pois as coisas sempre acontecerão no mundo físico. A internet e os blogs são tão somente os meios para comunicar e possibilitar esses acontecimentos de forma mais rápida, universal e sem barreiras.

Recapitulando. Em meu esquemático esquema tivemos:

  • blogs replicando a internet e outros blogs; esta seria a manifestação mais primitiva dos blogs mas não menos legítima
  • blogs replicando o mundo subjetivo; disto surgiu o conceito de diário virtual, uma das possibilidades dos blogs ainda amplamente utilizadas; considero muito importante a sua permanência
  • blogs replicando e repercutindo o mundo objetivo; blogs de notícias, de opinião, educação, temáticos, etc

Naturalmente, essas três fases podem estar presentes simultaneamente em um único blog.

Assim, há algum tempo venho pensando em uma nova fase para os blogs.

A fase em que os blogs levarão o conteúdo para fora da rede. Você sabe: para lá onde as coisas acontecem de verdade.

Já ouvi gente falar – ainda que sem muita propriedade – que os editores de blog só fazem escrever e não partem para a ação. Não acho que escrever seja pouca ação, pois são as palavras que constróem a realidade. E vice-versa, naturalmente.

Porém, não há razão para que não se pegue em armas.

Calma. Isso foi só uma imagem.

Nesta última semana, a partir de meu blog sobre livros, passei a me envolver com a criação de uma Biblioteca Livre na panificadora perto da minha casa.

Um dia depois do lançamento já comecei a receber doações de livros de leitores com os quais eu nunca havia travado contato antes.

Dois dias depois, recebi um contato de uma leitora que teve vontade de criar um projeto semelhante:

Sou amante da boa leitura, e tenho muitos livros em casa, e gostaria muito de ter uma biblioteca comunitária, para disponibilizar para as pessoas que como eu amam os livros mas não tem como adquirí-los. Este pensamento já me persegue a algum tempo, como vi que você está montando uma, gostaria muito de saber como são os procedimentos para começar a “colocar a mão na massa” por aqui.

Em seguida eu escrevi um artigo sobre como criar uma biblioteca livre.

O que quero dizer com isso é que seu blog pode ser a base para suas ações efetivas. Você age, usa o seu site para reportar essa ação. A ação é reforçada – neste exemplo, com a doação de livros – e multiplicada – também neste exemplo, por outros leitores que decidem partir para ações similares.

O fator de multiplicação é mais poderoso ainda se considerarmos a variável do tempo. Sabe lá quantos anos esses artigos sobre a biblioteca ficarão no ar. Daqui a décadas leitores criarão suas bibliotecas livres – ou os equivalentes futurísticos – assim inspirados.

Eu falei de uma biblioteca livre, mas poderia ser qualquer coisa, desde o início de uma coleção de selos, uma associação de observadores de pássaros ou a realização de negócios milionários.

A questão é a seguinte: blogs, em sua terceira fase, falavam da pequena parcela do mundo, parcela maior ou menor, que cerca o seu editor. Em uma quarta fase, influenciam a parcela do mundo que envolve esse mesmo editor. De fato, não há como uma pessoa mudar o mundo sozinha, mas ela pode mudar a parte do mundo que está a seu alcance.

E, como blogs não conhecem fronteira – apenas as da língua -, esse alcance pode ser maior do que se imagina.

O seu blog pode mudar o mundo.

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