O meu amigo Fausto apresentou-me o pensador José Ingenieros. Não sei se por achar a leitura adequada ou por identificar-me com o objeto de estudo da obra, mostrou-me o livro O Homem Medíocre.
Folheando o volume encontrei um trecho que, em época de debate sobre a validade ou não de rankings, pode interessar a editores de blogs: por um lado serve de consolo aos que não estão neles e, por outro, de aviso aos que estão.
Tomarei por advertência também para mim, portanto, visto que um ou outro blog meu – quando não um e outro – acaba aparecendo aqui ou ali em algumas dessas listas ultimamente.
Segue:
O homem medíocre que se aventura nos torneios sociais tem um apetite urgente: o êxito. Não suspeita que exista outra coisa, a glória, ambicionada apenas pelos caráteres superiores. O êxito é um triunfo efêmero, pequeno; a glória é definitiva, não se altera com o passar dos séculos. Um é mendigado; a outra, consquistada.
É desprezível todo cortesão da mediocracia em que vive. Triunfa humilhando-se, arrastando, às escondidas, na sombra, disfarçado, escorando-se na cumplicidade de inumeráveis semelhantes. O homem de mérito se adianta a seu tempo, tem seu olhar posto em um ideal. Impõe-se dominando, iluminando, fustigando, em plena luz, sem máscaras, sem humilhar-se, alheio a todos os disfarces do servilismo e da intriga.
A popularidade tem seus perigos. Quando a multidão crava os olhos pela primeira vez em um homem e o aplaude, a luta começa. Pobre de quem se esquece de si mesmo para pensar apenas nos outros. É preciso colocar mais distantes a intenção e a esperança, resistindo às tentações do aplauso imediato. A glória é mais difícil, porém mais digna.
(…) O homem excelente pode ser reconhecido por ser capaz de renunciar a todo cargo que tenha como preço uma partícula de sua dignidade. O gênio se move em sua própria órbita, sem esperar sanções fictícias de ordem política, acadêmica ou mundana.
(…)
Quem flutua na atmosfera como uma nuvem sustentada pelo vento da cumplicidade alheia, pode abocanhar pela adulação o que outros deveriam receber por suas aptidões. Mas quem obtém favores sem méritos não deve ficar tranqüilo: fracassará depois de cem vezes, em cada mudança de vento. Os nobres criativos só confiam neles mesmos; lutam, livram-se dos obstáculos, se impõem. São próprios seus caminhos. Enquanto o medíocre se entrega ao erro coletivo que o arrasta, o superior vai contra ele com energias inesgotáveis até tornar clara sua rota.
Você pode ler várias coisas no trecho acima. Uma delas é: rankings são legais, mas não se importe tanto com eles; há coisas mais importantes.

3 comentários ↓
Perfeito!
Obrigado, Nick. O mérito é do Ingenieros… abraços!
[...] da diferença entre glória e êxito que nos é apresentada por José [...]
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