O Branco Leone escreveu um artigo sobre direitos autorais.
Quase dois séculos de implantação da Lei do Direito Autoral (no Brasil, mas em outros países não é muito mais tempo) precisam ser revistos mais uma vez. Aconteceu muita coisa nesse meio tempo. Livros, discos, textos teatrais, fotografias, ilustrações (e sei lá mais o quê), “produtos” que antes eram resultado de processos caros e complexos — detidos por investidores e produtores de cultura, incluindo muitos que mereceriam aspas, mas deixo assim —, podem hoje nem existir fisicamente mas circular por e-mail, sem nenhuma possibilidade de controle por parte de quem insiste em querer controlar alguma coisa.
Esse é um tema muito caro a editores de blog.
Sinceramente, eu desencanei de textos meus copiados integralmente, mesmo em blogs rentabilizados por patrocínios e afiliações e que, em tese, acabariam por ganhar dinheiro com meu trabalho. Mesmo naqueles que nem se preocupam em linkar a fonte ou dar a real autoria. Em tese ganhar dinheiro, porque geralmente esses blogs simplesmente não emplacam, nem em número de leitores nem no fim do mês, na hora de receber o AdSense ou seja lá o que for.
Se não é esse o caso, os raros exemplos de editores que emplacam em audiência (talvez por prévio sucesso, anterior à prática habitual de plágio), não emplacam eticamente, sendo desrespeitados e motivo de chacota entre seus pares. Digamos que, moralmente, dão a ré no quibe. Ou kibe, se é que você me entende.
Um dos maiores escritores de todos os tempos, Jorge Luis Borges, disse certa vez que, para um autor, não é pouca ambição ter um texto, uma frase que seja ao menos, propagada anonimamente pelos séculos e territórios. Claro que essa era uma posição dele. E posições contrárias devem ser respeitadas.
Não poucos autores – musicais, literários, artistas em geral – diziam que se sentiam instrumento de algo externo, algo que pertence Universo se manifestava através dele. Ouvi Tom Jobim dizer algo semelhante a isso em uma entrevista. Mas claro que ele vivia, e bem, de seus direitos autorais.
O fato é o seguinte: a informação, agora na era do control cê control vê, do torrent, do mp3, dos splogs, se propaga de maneira incontrolável. Deixar comentários – educativos ou ofensivos – para blogueiros plagiadores – de boa ou má fé – será cada vez mais inócuo. É o mesmo que tentar matar a Hidra de Lerna.
A Hidra de Lerna era uma serpente que, ao ter sua cabeça cortada, nasciam duas em seu lugar. E assim por diante, ao infinito. Destruí-la foi um dos 12 trabalhos de Hércules. Mas Hércules é mitologia.
Os editores de blogs precisam saber lidar com uma situação real causada pela fácil propagação da informação proporcionada pela internet. O que antes era um crime pontual facilmente localizável, cuja responsabilidade era simples de ser apontada e até mesmo punida, passou a ter a responsabilidade pulverizada em um amplo território virtual.
O que é difícil de ser roubado tem valor (qualquer tipo de valor). O que é fácil de ser roubado e é roubado por um grande número de pessoas – incluindo a sua tia que não sai da igreja e tem um blog – ou deixa de ser objeto de roubo ou perde o valor ou deixa de ser passível de punição. Ou todas as opções?
Mudar como o mundo funciona – ou, no caso, como o mundo muda – é muito difícil. Mudanças individuais e pessoais são mais fáceis. São muitas as bandas que ao ver suas músicas se espalhando sem controle pela internet passaram a capitalizar não elas como produto cultural, mas seus shows, sua existência, sua presença diante dos fãs.
Eu admito que não sei exatamente como isso funcionará para blogs. Creio que o principal canal energético desse processo – por onde passará dinheiro ou seja lá o valor que você preferir (prestígio? amor? sexo? paz no mundo? influência?) – é a relevância, a autoridade sobre um tema (a palavra autoral, note, parece ter a mesma origem) e o capital social de um blog (ou do editor: afinal, você acha que blogs como os conhecemos são para sempre? O mundo muda meu filho). Essas e outras coisas poderão – e já podem – se tornar importantes.
Talvez a autoria já seja algo do passado.
PS – Na mais recente sequência do filme Jogos Mortais, o personagem Jigsaw diz que ter uma obra copiada é ruim, mas é suportável por se tratar de uma maneira de adulação. Pior, segundo o personagem, é ter uma obra inferior, que não é de sua autoria, falsamente atribuída a um autor superior a ela. Aí, de fato, é de matar. Nessas sofrem os nomes de Carlos Drummond de Andrade, Luis Fernando Veríssimo, Arnaldo Jabor, Clarice Lispector, Jorge Luis Borges que se espalham em correntes e blogs como autores de textos – muito ruins – que, na verdade, não são deles.

8 comentários ↓
Eu não ligo mais, tem um blog meu que uso muitas fotos e o pessoal costuma criar o hotlink, sei que afeta minha banda mas se eu for ficar alterando tudo que copiam ou deixando comentários para o autor não terei tempo para mais nada. Quando copiam um texto completo meu e no final colocam a fonte tb não ligo mais, cansei disso, é incontrolável, tem hora que me deixa chateado, mas a vida é assim, tem os que criam e os que copiam e nesse 1 ano que lido com isso já vi todos os copiadores abandonarem esse blogs…
Assunto importantíssimo!
Quando as primeiras regras de direito autoral foram criadas, elas serviam para proteger o investimento das empresas que produziam o livro/disco/etc. Isto costumava ser um processo caro, mais que o processo de criação pelo autor.
Hoje aquela proteção (na época, justa) aos empresários que investiam neste ramo, soa exagerada, já que isso não é mais tão caro assim. Também pesa o fato de as empresas (gráficas, gravadoras) muitas das vezes ganharem bem mais que os autores…
Mudanças são necessárias, e elas já estão acontecendo. Nos resta ficar atentos, e agir quando for possível ou necessário, para que o valor da autoria/autoridade não se perca completamente.
Clap clap clap.
Apesar dos pesares, acho que a solução para isso está longe.
Alessandro, escuta o que o Arnaldo Jabor disse hoje, sexta-feira, na CBN.
“Não agüento mais gente escrevendo no meu nome e publicando na internet”
http://cbn.globoradio.globo.com/cbn/comentarios/arnaldojabor.asp
Veio a calhar né?
abraço
Seu raciocínio faz todo o sentido. Mas acho que ainda vale a pena lutar para resguardar a autoria de certas obras – as ‘the best of’ – devido ao seu valor criativo.
No entanto, isso vai ficando cada vez mais difícil. Nos resta o capital social, a credibilidade. Esse tipo de coisa está ligado a uma pessoa, e não a um texto ou post. Não é à toa que nós lemos Luis Fernando Veríssimo, e não *textos* de Leuis Fernando Veríssimo.
[...] ← O direito autoral ainda vai virar de pernas para o ar. Esqueça: já virou [...]
Thássius,
o negócio é ir ganhando terreno em outras frentes. Investir no perdido talvez seja desperdiçar energias…
Abraços do Alessandro.
FMatt,
rendeu um post o seu link…
Abraços do Alessandro.
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