O homem está condenado a ser livre.
Esta bela frase não é minha, mas do filósofo francês Jean-Paul Sartre. É uma das máximas do Existencialismo.
Creio que ela se aplica com alguma precisão aos blogs e a seus editores – que vêm falando muito, e com razão, sobre a responsabilidade ultimamente – porque justamente a internet é esse meio em que a liberdade está um pouco mais em evidência, sem algumas das máscaras desta ou daquela convenção social. Mesmo algumas leis civis e penais ainda não conseguem se fazer aplicar na web.
Eis por que a liberdade e a responsabilidade são tão próximas:
Liberdade é só para os fortes, baby.
Acontece que, da liberdade, decorrem duas conseqüências: a angústia e a responsabilidade.
A angústia vem, dentre outras coisas, de haver tantas possibilidades e só poucas poderem ser abarcadas. Daí tantos homens escolherem as prisões, sejam elas quais forem, abrindo mão assim de sua liberdade e de suas escolhas e, com isso, também de uma parcela de sua humanidade. Mas mesmo quando escolhe uma prisão, o sujeito não deixa de ser responsável por essa escolha. É um beco sem saída.
Mas não irei adiante nesse tópico, pois o assunto é justamente responsabilidade, muito embora, em parte, a angústia existencial dela decorra.
A existência precede o post, mon cherry.
Se a humanidade – categoria na qual muitos blogueiros (não todos) podem ser incluídos – é livre, o indivíduo pode fazer de si o que bem entende ao longo do tempo em que existe.
Disto vem outra frase famosa de Sartre: a existência precede a essência.
Isto é, primeiro você existe. Depois de se perceber no mundo, você se define. Você se torna aquilo que você é. E é responsável pelo mínimo detalhe daquilo que você é. Não o governo, não a crise aérea, não o seu vizinho, não o aquecimento global, não Bill Gates, não a sua namorada. Você é responsável.
Onde entram os blogs na margem esquerda do Sena.
No meu parco entender dessa história toda, chego a algumas conclusões interessantes. Trata-se de um círculo virtuoso: quanto mais consciente de sua responsabilidade sobre si mesmo, mais livre você é. Quanto mais livre, mais responsável.
Porém o inverso também é verdadeiro. Quando menos você é responsável, menos liberdade você tem. Constituindo um círculo, então, vicioso. Nesse caso, alguém ou algo passará a ser responsável por você, seja um estado mais ou menos totalitário, sejam as leis, seja uma babá, seja uma internet menos livre e mais vigiada. E, com isso, você será menos livre e, acima de tudo, alguém ou alguma coisa passará a ser livre por você.
Por isso, creio que editores de blog devem ser responsáveis sim pelo que escrevem apenas se eles prezam toda a liberdade de que, para o seu bem e de outros, hoje tiram proveito.
A responsabilidade é tanto mais cobrada quanto mais influente é um meio de comunicação. Nos próximos cinco ou dez anos haverá um crescimento em tamanho e importância da blogosfera e a cobrança também crescerá naturalmente.
Agora, dê uma olhada nos posts de seu blog. Vá fundo nos arquivos e procure descobrir o quão livre e responsável você tem sido.
Olhe no espelho e entenda que parte disso que você está vendo – e também que não está vendo – tem sido construída pelo que você escreve.

11 comentários ↓
Que bom ler um post inteligente. Concordo plenamente com o Autor do Post. Resumindamente… o preço da liberdade é a eterna vigilância… hehehe
Infelizmente muita gente confunde liberdade de expressão com irresponsabilidade, OPA! são conceitos que se contrapõe… você é livre mas o preço da liberdade é a responsabilidade.
Mesmo no caso dos posts anônimos !
Já que é o proprietário do Blog que permite que sejam postados comentários de forma anônima. No meu blog por exemplo, eu não permito. Que história é essa de anonimato ? Tô fora. Fale o que quiser, mas antes se identifique.
[ ]’s
Ricardo Vaz Monteiro
Com certeza, Ricardo. O anonimato é uma forma de se eximir da responsabilidade, enquanto indivíduo, cedendo-a ao anônimo, que é uma das máscaras do medo ou até da covardia. E, segundo o raciocínio, se você se exime da responsabilidade, exime-se também da liberdade. Abraços e volte sempre.
Alessandro, meus parabéns. Ainda não havia lido um texto – complexo mas muito fácil de se entender.
Vc colocou perfeitamente a questão sobre ser livre e ser responsável. Isso só me deixa mais motivado para promover mais a responsabilidade daqueles que gostam e querem se expressar.
Em tempo: em outro blog, nos comentários eu usei um exemplo “tosco” mas que reflete o tema. Vc pode dar sua opinião sobre um filme, gostou ou não, mas dizer que a atriz foi péssima por conta de estar envolvida com drogas, sem ter realmente a certeza disso (apenas ouviu falar) pode ser prejudicial…e se ela estava apenas com uma baita dor de barriga?
Não sei se fui claro, mas meu questionamento sobre a responsabilidade dos blogs é sobre esta posição.
Somos todos responsáveis sim, e cada vez mais livres!
Um grande abraço e mais uma vez, parabéns!!
Ricardo Cabianca
Estou Blogado! http://www.cabianca.net
Alessandro, e este teu artigo já fica como um recado para quem ainda não tem, mas quer ter um… blog!
=)
Cara, belo post.
Vou aproveitar o ar filosófico do mesmo pra te questionar: Será que a responsabilidade traz mesmo toda essa liberdade? Afinal se vc precisa ser responsável para ser livre, você ja esta seguindo uma linha moral que te amarra de alguma forma.
Abraço
[...] não inventadas. Um texto fantástico que li sobre este tema foi do Alessandro Martins sobre a liberdade dos editores de blog. Vale a [...]
Ricardo, seu comentário só me incentiva a continuar a exercer minha liberdade e minha responsabilidade. Desde que comecei a editar meus blogs há pouco mais de um ano, tenho descoberto mais e mais as possibilidades sérias e divertidas desse meio de comunicação. Não sei para onde ele vai, mas certamente vou tentar ir com ele para o melhor lugar possível. Abraços, meu caro.
E eu espero que tenham, Enoch. Abraços!
Leandro, na verdade não adianta, pois inevitavelmente é você quem escolhe esta ou aquela linha moral. E dizer que ela lhe é imposta é tão somente negar, em vão, esta liberdade. Abraços do Alessandro.
[...] jornal ou outro meio de comunicação habitual? Ela se dilui entre suas várias partes geradoras. Em um blog, ela se concentra. É um meio de comunicação para pessoas corajosas, em que o anonimato não tem [...]
[...] o editor também assume sua responsabilidade como blogueiro. Eu, como outros mais sensatos, defendo a responsabilidade também de quem [...]
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