Campanha do Estadão: blogs bons devem vestir a carapuça sim

Dia mundial do traje de gorilas

Como se fosse um presente, uma ofensa não aceita permanece com quem a oferece.

Talvez com essa filosofia, um ou outro blog conhecido por polemizar por esporte tenha sugerido a adoção de uma posição mais passiva – e mais a seu gosto – diante da campanha do Estadão.

De fato, não acho que tenha sido a intenção da empresa jornalística ou do publicitário responsável pela criação do material desvalorizar os blogs como um todo. Mas apenas blogs ruins e outros tipos de sites ruins.

O plano, suponho, era posicionar o Estadão como fonte de confiança numa internet em que predominam as informações sem credibilidade e a enganação, ambiente em que é dada ao leitor toda a responsabilidade de filtrar tudo aquilo que lê.

Realmente, o leitor é responsável por isso.

Eu, quando leio, sou.

Mas um editor que faz um blog de qualidade cuida para que seu público tenha o mínimo de ocupação com essa tarefa.

Eu, quando escrevo, cuido.

Disso, creio, deriva a credibilidade, a qualidade e a reputação de qualquer veículo de comunicação. Seja o New York Times, seja o Blog do Zé das Couves.

Porque o editor também assume sua responsabilidade como blogueiro. Eu, como outros mais sensatos, defendo a responsabilidade também de quem escreve.

Note que os mesmos blogs – ou o mesmo blog – com tendência a ignorar a questão são os mesmos – ou o mesmo – que costumam jogar toda a responsabilidade, ou boa parte dela, sobre a recepção.

E não sobre a emissão da informação.

Ao mesmo tempo em que são blogs – ou blog – que já têm uma boa audiência. Supostamente bons e de confiança. Portanto, imagino que para esses – ou esse – a posição passiva, nesse caso, seja a mais confortável.

A campanha visava apenas os blogs ruins. Mas todos os blogs foram atingidos.

Para boa parte do público, blogs são blogs. Uma grande massa de diários online sem relevância informativa e nada mais que isso.

O problema da nova campanha do Estadão é que ela surgiu num momento em que uma parcela de editores de blogs vêm começando a querer mudar o cenário. Foi, em conseqüência, um erro de momento. Não foi uma boa hora para veiculá-la.

Não uma maldade ou uma defesa contra a blogosfera, bolha assassina de grandes portais: hoje ela ainda é insignificante no Brasil e no mundo – basta ver como se posicionam os 100 primeiros blogs brasileiros no Tehcnorati em relação ao resto do globo. Somos apenas uma quermesse.

Foi apenas um erro publicitário.

Porém, embora só os editores de blogs de baixa qualidade devessem se sentir atingidos por esse equívoco, não creio que estes venham a se manifestar. Pelo menos não com contundência.

Resta aos blogs de qualidade, aos que assumem a sua qualidade, esse papel.

Fico pensando o que um psicólogo que mantenha um blog a sério tenha imaginado ao ver isso.

Ou o que achou um professor universitário que usa os blogs como material de apoio.

A passividade é calar. Logo, concordar com a campanha

A campanha visava apenas os blogs ruins. Mas todos foram atingidos.

É um dos casos em que ficar quieto implica ter vestido a carapuça. Há que se vesti-la, mas do avesso.

A passividade, sugerida por um ou outro blog conhecido por ser polêmico por esporte, é calar. Logo, consentir.

Recomendo que se aceite a ofensa. Para atirá-la de volta imediatamente. Com classe e efeito. No ângulo.

Leia também:

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  • 18 comentários ↓

    #1 João Varella em 11.8.2007 às 8:54 pm

    Quanto mais comentários sobre a campanha, mais admirável eu acho a Talent… ponto para eles.

    #2 Alessandro Martins em 11.8.2007 às 9:10 pm

    Você também acha que toda publicidade, negativa ou positiva é boa? Conta outra, João.

    #3 Estadão contra os blogs: cuidado com as armadilhas! « Monitorando em 11.8.2007 às 10:12 pm

    [...] Martins adotou um tom moderado na resposta. Para ele, “os blogs bons devem vestir a carapuça, sim!” Carlos Merigo, do Brainstorm 9, critica a posição generalizora da campanha, alertando que as [...]

    #4 João Varella em 12.8.2007 às 3:43 am

    Conto essa mesmo.

    Toda publicidade que repercute bem cumpre com o papel de divulgar. E, nesse caso, dividiu a blogosfera -leia como: mais debates- e marcou a posição do jornal, de ser um veículo de credibilidade. E isso é o que mais importa em um jornal.

    Na moral, eu não me informo por blogs. Toda vez que necessito de informações confiáveis, vou direto nos jornais que assino, um deles concorrente direto do Estadão, btw. Um incauto que depende dos blogs para se informar fica perdido ne emaranhado de lixo e distorções que estão na rede. Justamente ponto que eles tocam.

    Claro que não se tratam de símios no teclado. Pior. São assessores, publicitários, marketeiros e atores políticos doidinhos para distorcer as informações.

    #5 Dr. Love em 12.8.2007 às 12:13 pm

    Alessandro, aquele anúncio do Fredão compromete diretamente meu trabalho. Mas sabe de uma coisa, quem lê meus textos vai ignorar isso.

    O grande problema é afastar os possíveis novos leitores e manter s blogs sob o manto de “diários de criança com tempo livre demais”.

    Abraço

    #6 Alessandro Martins em 12.8.2007 às 1:16 pm

    Desculpe, meu caro João, mas eu não sou nem símio – como você bem disse -, mas também nem estou interessado em distorcer informações. Assim como vários amigos que fiz e que levam seus blogs muito a sério. A campanha do Estadão, no entanto, dá a entender tudo isso que você disse de maneira geral principalmente para o público que ainda não conhece o formato. No entanto, você é jornalista e sabe muito bem, que jornais nem sempre são a fonte de informações mais confiáveis. Da mesma forma como nos blogs, é preciso saber filtrar as informações. E um tanto mais ainda, pois qualquer informação que é apresentada num jornal já sai com as vestes da verdade, como se fosse – como bem disse José Miguel Wisnik em sua palestra sobre ética – um recorte da realidade. Enfim.

    #7 Alessandro Martins em 12.8.2007 às 1:20 pm

    É justamente nesses que eu penso, Dr. Love. Quem já é leitor e bom leitor não foi atingido. Talvez tenha até se sentido ofendido. Mas quem não é leitor vai continuar pensando que blogs não são confiáveis durante um bom tempo. Apenas 15% dos brasileiros têm internet em casa. Em poucos anos isso vai dobrar, representando um crescimento imenso na economia do meio. Eles, com essa campanha, querem tirar a gente desse crescimento. Acho que você deveria escrever um artigo sobre isso. Não esqueça de me avisar, caso o faça, para que eu possa dar continuidade ao debate. Abraços!

    #8 Dr. Love em 12.8.2007 às 1:42 pm

    Sabe que você me deu uma bela sugestão, Alessandro.

    Acho que está na hora de colocar um artigo diferente na coluna, o pessoal tem o direito de saber que as perguntas não estão sendo respondidas por um macaco!

    E nem pelo Fredão… ;D

    #9 Alessandro Martins em 12.8.2007 às 1:45 pm

    Acho que O Fredão Sou Eu é um título bom para o artigo, rs. Abraços do Ale, Doc.

    #10 João Varella em 14.8.2007 às 2:25 am

    Alessandro, obviamente que não estou acusando você nem os blogueiros responsáveis. Agora convenhamos que o contexto dos blogs é passível de desinformações.

    A maioria dos blogs é opinativo. Buscar informação que é bom, nada. Aí metem o pau na mídia. Muito fácil eu daqui do meu quarto meter o pau na TAM. Ir na coletia de imprensa e apurar os fatos, necas.

    No geral, os jornalões buscam todos os lados da informação. Não por eles serem bonzinhos. É pelo fato do público ser tão amplo que tomar qualquer posição ideológica fica complicado. Salvo, obviamente, nos espaços dedicados a isso – editoriais, artigos, etc.

    Um jornal toma essa postura de ser a realidade por ser simplesmente esse o único acesso da maioria aos fatos. Por mais que eu me esforce, a imagem que tenho do acidente da do Airbus é a que foi exibida pela mídia.

    Em suma: os dois meios são válidos. Fiz o papel do advogado do diabo por acreditar que os meios tradicionais tem o direito de se defender da enxurrada de sucursais de poltronas e controle remoto. Inclusive acredito que o Estadão concorde com você e comigo no que toca aos bons blogs. Olhe para quantidade de blogs disponíveis no site oficial do jornal.

    Paro com a discussão aqui pois parece que ainda temos muita munição para o tema. Pelo que li em seu artigo posterior, sobre o que jornalistas tem para ensinar, coincidimos em muitas coisas.

    Em tempo: sou um reles estudante que trabalha no ramo da comunicação há 4 anos. Ano que vem sim, serei jornalista de fato.

    #11 Alessandro Martins em 14.8.2007 às 4:23 am

    Então obrigado por me explicar como funciona um jornal. João. Acho que ficamos por aqui nessa história. :-) E fico feliz que tenha lido o artigo posterior que, no fim, deixa meu posicionamento um pouco mais claro. Abraços fortes.

    #12 João Livi em 15.8.2007 às 11:44 pm

    AGORA QUE VOCÊ JÁ LEU A VERSÃO DO GENERAL CUSTER,
    LEIA A DOS ÍNDIOS.

    Nos ultimos dias, vimos reverberar na blogosfera ataques e defesas à nova
    campanha do Estadão, feita pela Talent. Tudo começou nos blogs de publicidade e nos pegou
    totalmente de surpresa, principalmente por que o subtexto que foi espalhado
    por aí, de que o Estadão é contra os Blogs, não foi colocado em nenhuma das
    peças da campanha. Isso seria extremamente incoerente, já que o Estadão sabe
    que os blogs não só fazem parte da sociedade como do próprio Grupo Estado.
    Sendo assim, vamos analisar a questão mais de perto pra saber se houve alguma
    falha na comunicação da campanha.

    Os filmes começam com uma vinheta , World Wierd Web, que já identificam o propósito
    de fazer humor com a parte estranha, sem noção, da web.
    No filme em que o rapaz lê o blog de economia do Bruno, o cientista diz que o
    macaquinho já está copiando e colando textos pela web. É impressionante, mas a
    reação que esperávamos dos blogueiros é exatamente contrária ao que aconteceu.
    Quantas vezes, você blogueiro já não encontrou seu texto por aí, fora de
    contexto, faltando partes e sem os créditos? No outro filme da campanha, dois
    ruivos colocam informações mentirosas na internet pra sair ganhando alguma
    coisa. As meninas que são enganadas pelo hoax nunca falam que encontraram
    essas informações num blog e, do outro lado, um dos ruivos diz apenas “pronto,
    tá na net”. Nesse caso, nada de blogs. Na mídia impressa acontece algo
    parecido, apenas um do três anúncios diz abertamente “Blog”, os outros dois
    usam os termos “página” e “site”.

    Desta forma , nós posicionamos o estadao.com em linha com a proposta de
    credibilidade, conteúdo de qualidade e compromisso do Grupo Estado. Os sites,
    blogs, veículos e pessoas que frequentam o lado “luz” da internet , obviamente
    , não devem se sentir atingidos por uma crítica ao lado “escuro” do ambiente
    virtual, da mesma forma que um bom jogador de futebol não deve se sentir
    desvalorizado por ter um colega perna-de-pau ou quebrador de joelhos. Ou será
    que os publicitários que primeiro criticaram nosso trabalho consideraram
    uma campanha difamatória aos publicitários o fato
    de um dono de agência ganhar as manchetes por servir de intermediário na
    distribuição de fortunas em verbas públicas?
    Alguém em sã consciência pode defender incondicionalmente todo o conteúdo da
    internet , com seus hoaxes , pegadinhas, pornografias, ideologias escondidas,
    baixarias, falsos gurus, falsários, tomadores de dinheiro e tempo, Maranhão do
    Sul na wikipedia, alterações da história e interesses privados disfarçados de
    clamor do internauta?

    No seminário da Microsoft este ano, em Cannes, os dados apresentados levaram
    a uma inconteste conclusão: a de que a internet, como as
    regiões de uma cidade, vai se dividir em duas. Uma útil, crível ,
    inteligente, prestadora de serviço, informativa e confiável. Outra que é como
    uma rua escura e sem policiamento: vai quem quer, sob seu próprio risco. Vamos
    sempre promover o estadão.com como parte da primeira metade.

    Separar o joio do trigo na internet deveria ser do interesse de qualquer
    cidadão de bem.

    João Livi
    Diretor de Criação- Talent
    joaolivi@talent.com.br

    #13 homem e mundo » os blogs vão além em 5.9.2007 às 7:17 pm

    [...] blogueiros e um vergonhoso professor da USP. Também falaram sobre blogs e o estadão o Alessandro Martins. O Catatau escreveu um excelente texto. O Inagaki também contribuiu. Os blogueiros do video [...]

    #14 _Maga em 8.9.2007 às 2:07 am

    Olá Alessandro! Que blog lindo é este seu blog novo! Parabéns!
    (uma pena que, por questão de tempo, não dê para freqüentar todos os teus blogs…).

    Sobre o teu texto um trecho chamou em especial a minha atenção:

    “Fico pensando o que um psicólogo que mantenha um blog a sério tenha imaginado ao ver isso.”

    Não precisa mais ficar imaginando: apesar do meu blog não ser necessariamente sobre comportamento, eu sou psicóloga.

    E aqui vai o que eu imaginei quando vi aquela propaganda:
    infelizmente a propaganda não foi feliz por um motivo simples – foi usado um argumentum ad hominem.

    Nesta propaganda em momento algum foi criticado o conteúdo que é vinculado em um blog, mas sim o modo como um possível editor de blog se portaria. Para ter-se idéia do quanto este argumento torna esta propaganda sem qualidade de argumentação vou mostrar como seria o a réplica nos mesmos termos.

    “O Sr. Fulano de Tal, está com o nome no SPC há cinco meses. Ele é editor do Caderno de Economia do Jornal X”.

    A qualidade das matérias do Jornal X não pode ser questionada por isso.

    Felizmente, a ciência séria abandonou a bastante tempo esse tipo de argumentação e isso torna possível debates produtivos acerca dos resultados de pesquisa e teorias. Sempre quando leio revistas e jornais acho uma pena que no curso de jornalismo não seja priorizado algum contato do aluno com a filosofia da ciência. Acredito que ajudaria bastante na forma de apresentação das matérias. Não só no curso de jornalismo, mas em outros cursos, inclusive em muitos cursos de psicologia.

    Acho uma pena grande o Estadão ter vinculado está campanha, pois ela reforça um modo de pensar que é preconceituoso. Esse tipo de argumento me entristece não porque eu leve-o a sério, mas porque ele demonstra o quanto ainda ignoramos o que a ciência tem de mais rico a nos ensinar (o seu método) e por demonstrar o quão preconceituosos nós somos, julgando pelas aparências.

    Espero ter sido clara nos argumentos.

    Um abraço e parabéns pelo texto :)
    Marcela Ortolan

    #15 _Maga em 8.9.2007 às 2:13 am

    Ah sim, o mesmo vale para os elogios.

    Não é por que saiu no veiculo tal ou foi o fulano tal que escreveu que é bom.

    Fazer elogios ad hominem são importantes para a auto-estima de quem escreve. Contudo, na hora de avaliar argumentos, estes devem ser avaliados por si e não por que quem escreveu. Não é por que quem está argumentando tem Pós Doutorado em Harward que vou deixar de criticar os seus argumentos, caso eu tenha alguma base para isso.

    Outro abraço

    #16 Alessandro Martins em 8.9.2007 às 10:40 am

    Já corrigi o trecho que você apontou, Maga… quanto a tudo que você disse, achei uma pena que não veio antes. Teria acrescentado muito aos argumentos. Ah! E penso se não seria uma boa idéia você usar a ferramenta blog como apoio profissional. Tenho certeza de que teria sucesso… afinal, há tantos psicólogos fazendo isso com a TV… tem aquele Gikovate no rádio… que tal uma psicóloga nos blogs? Eu te daria o maior apoio na implementação e até na divulgação…

    Quanto a acompanhar todos os meus blogs, sugiro o uso de um leitor de RSS… iria facilitar em muito a sua vida… :-)

    Beijos do Ale.

    #17 lucas n em 28.9.2007 às 9:44 pm

    Sobre a resposta da talent.
    A campanha não é contra os blogs.
    Mas é claramente contrária ao desenvolvimento colaborativo.
    É um tipo de campanha mal formulada, que foca na pretensa
    má qualidade dos concorrentes, em vez de ressaltar as próprias qualidades. Ridiculariza um modelo de construção do conhecimento sério, com resultados positivos, como a wikipedia, que pode ter suas falhas, mas nem por isso é necessariamente ruim.
    Parte de uma análise muito mal feita da realidade e do mercado. Ridiculariza o próprio consumidor de seu produto. Porque trata o leitor como um ser estúpido, incapaz de discernir e escolher no que confiar. A peça sobre as mulheres que acham que os ruivos devem ser melhores namorados torna isso claro. Pior do que isso, não compreende que, na blogosfera, a distinção entre produtor e consumidor se dissipa.
    Então a campanha não é contra os blogs, mas sim contra o público, os consumidores de jornais, pois os retrata como imbecis que dependem de oligopólios iluminados para saberem o que devem pensar. A idéia de separar o joio do trigo pode parecer óbvia, mas ninguém toca no ponto sobre “por que o estadão faria parte do trigo e não do joio?”, que é a única pergunta que interessa aos compradores de jornal e que deveria ser respondida de forma criativa pela agência de publicidade.
    Não faz sentido também, uma contra campanha dos blogueiros. A campanha da talent é tão ruim que vai se sabotar sozinha. O consumidor não gosta de ser chamado de burro.

    #18 Alessandro Martins em 2.10.2007 às 1:22 am

    De fato, Lucas… essa história já está sendo esquecida… seja bem-vindo por aqui, meu caro.

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