A Editora Zahar enviou-me o livro O Culto do Amador, de Andrew Keen para análise.
Para você ter uma idéia do clima, o subtítulo é: “como os blogs, MySpace, YouTube e a pirataria digital estão destruindo nossa economia, cultura e valores.”
Parece até o último pio da jurupoca da propriedade da informação.
O livro é cheio de estatísticas que mostram o que todos nós que já usamos blogs, Twitter, Orkut e outros já sabemos: a propriedade sobre a informação e a autoridade sobre a informação estão se esfacelando, estão se esboroando.
A informação está nas mãos de todos e, ao mesmo tempo, nas de ninguém.
Tudo é supostamente mais acessível e, simultaneamente, menos confiável. Não que fosse confiável quando na posse de poucos. Mesmo porque ainda está na posse de poucos.
A questão é que isso não é ruim em si, como parece querer mostrar o autor do livro. Mas também não é bom.
Nem bom nem ruim: apenas um fato.
E as consequências de um fato dependem tão somente do que fazemos com ele e de como nos deixamos nos afetar.
É como se, de repente, só nos restasse água do mar para beber. Podíamos morrer esperneando e reclamando porque ela não é potável. Mas também podemos criar meios aceitáveis para torná-la bebível.
A questão da quantidade de informações disponíveis e a sua confiabilidade – ou não – pede outro tipo de postura de quem tem acesso a elas.
Antes, em uma ponta, você tinha que ter os dados, de uma maneira ou de outra. Agora, na outra, você tem que saber como fazer a triagem desses dados. Como ser seletivo, como ultrapassar a máscara do narcisismo, encontrar o sinal no meio do ruído. Como filtrar. Como tornar a informação potável.
Eu poderia escrever um longo artigo sobre tudo isso, mas a palestra de Luli Radfahrer – que fala sobre educação e muitas outras coisas – tem mais a dizer.
Em vez de ser um abutre do catastrofismo, Radfahrer propõe posturas. Não soluções, pois sequer considera a distribuição da propriedade e da autoridade sobre a informação um problema: é tão somente, como eu disse, um fato. Keen, ao contrário, dedica algumas páginas finais a isso.

7 comentários ↓
Abutres do catastrofismo – pindure um na arvore mais proxima….
Texto impecavel.
Abutres do catastrofismo – pEndure um na arvore mais proxima….
Texto impecavel.
Eu acho que a abundância de informações dá uma liberdade tão grande às pessoas como nunca houve. É o de sempre: com liberdade, as coisas acabam mostrando sua verdadeira face. As pessoas que vêem o avanço de youtubes da vida como mal, são, na verdade, pessimistas. Acreditam que o homem não faz o que preste com a sua liberdade.
Por um lado, eu pessoalmente tbm sou bastante pessimista com a humanidade. Por outro, o que fazer? Cercear a liberdade? Isso também não me parece bom.
Não acredito que se deram o trabalho de traduzir essa porcaria para lançar no Brasil. Livro intelectualmente desonesto, senão canalha, mesmo.
Minha resenha:
http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/view/4427/3327
O fato de nada pertencer a mais ninguem e sim a todo mundo tem levado a equivocos gritantes. O respeito a propriedade intelectual tem sido esquecido em nome de um falso e perigoso liberalismo autofagositante que tudo pode e tudo “copia e cola”… As novas mídias estão ai , é um fato. Como usá-las (para o bem ou para o mal) é que vai fazer a diferença no futuro que começa daqui a um minuto.
Não acredito que seja o fim de nada. É uma mudança, e quem não estiver preparado para ela(ou se preparando), vai sofrer conseguências.
E sobre liberdade, coomo o caminhante falou. Isso é que não existe ninquém para dizer o que se deve fazer, essa “liberdade” deixa apavorado quem não está acostumado a pensar.
Träsel,
obrigado por compartilhar o link de seu artigo.
Sobre esse livro, o engraçado é que a assessoria de imprensa está apostando forte nos blogs para divulgá-lo.
Abraços do Alessandro!
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